FONTE: http://www.folhape.com.br/index.php/caderno-cidadania/630401-generos-textuais-um-olhar
Muito se discute e tem se discutido no ambiente acadêmico sobre os gêneros textuais. Diante de um mundo globalizado, no qual as tecnologias possibilitam o surgimento de uma gama variada de gêneros textuais, é comum o debate acalorado nas discussões acadêmicas sobre o que pode ser caracterizado um gênero. Vamos correr um pouco neste rio.
Quando se fala em gêneros textuais, não se pode começar a conversar sem citar a importância teórico-metodológica das ideias de Luiz Antônio Marcuschi. O linguista estabelece uma discussão de gêneros utilizando uma forma didática e científica acerca do que é gênero e também do que é suporte. Por exemplo: um outdoor é um gênero ou o suporte para um gênero?
O próprio especialista já o classificou como gênero mas, em um artigo publicado em 2003, na revista Língua, Linguística e Literatura, ele o classifica como um suporte, mas, segundo o mesmo, dada a diversidade de gêneros que alberga agora o tem como um suporte realmente. No entanto ele ressalva que essa questão do outdoor merece um estudo à parte.
Para não responder a uma possível pergunta sua, arrisco-me a fazer uma conjectura sobre o outdoor. É um equipamento publicitário usado para veicular mensagens comerciais, institucionais, de cumprimentos, de valores etc. Cabe a pergunta: quando pretende-se divulgar nesse espaço uma mensagem e esta mesma mensagem em um anúncio de jornal o conteúdo é o mesmo? O que é dito é comunicado da mesma forma? Com as mesmas palavras?
A resposta é não, claro. Não poderíamos prescindir de elementos icônicos mais evidentes em um outdoor do que em um anúncio de jornal. Mudamos a forma de veicular uma mensagem por conta de vários fatores, dentre eles o meio pelo qual ela é veiculada. Considerando essa condição poderíamos dizer que a segunda colocação de Marcuschi, sobre o outdoor ser um suporte e não um gênero, seria a mais adequada.
Mas não se admirem se um dia os especialistas o considerarem um gênero, como fez Marcuschi anteriormente, por conta de mudanças no seu uso ou da influência de novos gêneros motivados pelas tecnologias em ebulição. Tudo, no mundo dos gêneros, é uma possibilidade. É efêmero, sem ser volátil.
Como podemos perceber, a questão dos gêneros não é estática. Ela se movimenta de acordo com as necessidades que a sociedade lhes impõe. O gênero é, acima de tudo, um produto social, o resultado dos diversos processos de interação entre indivíduos ou grupos de indivíduos inseridos em um panorama de valores, ideias e costumes.
Quem trabalha muito esse escopo do social é o também linguista Charles Bazerman. Para ele, os gêneros são parte das relações sociais dos indivíduos, são a parte visível do complexo de dinâmicas sociais e psicológicas. Indivíduos inscritos em papeis sociais específicos produzem, reinventam e reproduzem gêneros.
E podemos ir longe. As figuras marcadas nas cavernas são um gênero porque o Homem na antiguidade também pertencia a uma organização social. E podemos ficar por perto que vamos colher um mundo de gêneros: cartas, blog, sites, anúncio de jornal, artigos científicos, ensaios, enfim, não há limite para a capacidade de produção humana na teia das organizações sociais.
Os gêneros, portanto, são produzidos todos os dias e com diferentes propósitos comunicativos. As diferentes manifestações genéricas trazem a marca do extrato social que as produzem.
Outra questão também acalorada nos ambientes acadêmicos é quanto à mistura de gêneros, chamada tecnicamente de imbricação genérica. É quando um gênero se junta à outra e forma um novo gênero ou há uma dominância de um gênero sobre outros. Se temos uma carta de amor em um convite de casamento, quanto é de carta de amor e quanto é de convite de casamento?
Ambos os gêneros têm propósitos diferentes. O gênero carta de amor é usado por apaixonados na troca de mensagens amorosas, confissões de sentimentos etc. O convite de casamento, como o próprio nome já diz, tem o propósito de convidar sobre o enlace de um casal. Mas quando ambos estão misturados o que fazer? Como classifica-los.
Um caminho seria a análise do gênero não em si, mas dentro de seu contexto? Por quem foi produzido? Para quem? Qual a intenção desse gênero híbrido? Com essas e outras perguntas respondidas certamente chega-se a uma conclusão. Um teórico que trabalha essa questão do mundo dos gêneros é o indiano Vijay Bathia. Ele emprega o termo “constelações de gêneros” para traduzir a capacidade humana na produção de diferentes tipos comunicativos.
Seja qual for a teoria que se lance mão para estudar os gêneros, é mister que se dispa de conceitos e valores pré-concebidos para não correr o risco de impregnar na análise ideias naturalizadas de discursos hegemônicos. Quanto mais o pesquisador internalizar a necessidade da imparcialidade possível, mais a sua análise chegará perto da neutralidade. Se é que isso é possível. Então, fica o desafio!
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