Se entrasse num reality show que desnudasse sua vida e dependesse do voto popular, Lobão teria grandes chances de sair vitorioso. Porque ninguém mais que o roqueiro tem as características - e isso pode soar irônico - que os novos queridinhos do Brasil. Vejamos: ele ostenta a fama de ser polêmico por não ter papas na língua, coloca a sinceridade como ponto de partida para tudo e afirma que seu discurso, por mais que desagrade alguns, tem coerência. "Engracado que no país da fofoca, opinião é tabu. Será que não deu pra entender que eu tenho uma certa coerência", questiona, rebatendo a fama de polêmico.
Lobão não finge amor por quem odeia nem esconde admiração por quem adora. É o típico brother da vida real. E isso explica o porquê de uma legião sem-fim de fãs à sua pessoa - sem questionar aqui a sua qualidade enquanto músico.
Parte desse público esteve, na noite desta quarta-feira, numa livraria do Recife para ter autografado 50 anos a mil, biografia escrita a próprio punho com auxílio do jornalista Claudio Tognolli, há 15 semanas entre os livros não-ficção mais vendidos no País. Na obra, Lobão escancara vida e carreira sem pudor. Grita seus medos, seus momentos de fraquezas, alardeia inimizades e revela intimidades que possivelmente não deve ter contado nem aos melhores amigos.
Em entrevista ao NE10, Lobão, que faz show nesta quinta-feira (7) na Concha Acústica da UFPE, fala do alto preço que paga por dizer o que pensa, da relação com a imprensa e dos mais de 115 mil seguidores e quase 18 mil posts de seu Twitter. "Não tô ali desocupado, achando que aquilo é uma maravilha. Inclusive, não é. Mas faz parte do meu trabalho", afirma.
RELAÇÃO COM A IMPRENSA
Acho que pela primeira vez na minha vida eu tô tendo um mínimo de respeito pela imprensa. Tô bastante feliz em ter conseguido adquirir esse armistício.
UM CARA POLÊMICO
Eu não me sinto polêmico. Me sinto normal. Eu me acho o tipo do cara bem educado. Minha mãe me ensinou a ser sincero, a falar as coisas que eu gosto, a ser honesto. Se você for ver bem, eu só sou tido e havido pelo que eu falo; as pessoas tendem a dizer que sou marketeiro, polêmico e se esquecem que o Brasil, de uma forma ou de outra, talvez por problemas históricos, atrofiou a opinião, a prática de dar opinião. Engracado que no país da fofoca, opinião é tabu. Você não pode falar uma coisa de verdade. Agora, se você for adulador, um puxa-saco, aí as pessoas não veem que é marketing. O engraçado é que, olha, não é fácil fazer isso não. Mesmo porque até hoje esse tipo de coisa só me trouxe atribulação; é um preço que eu pago.
COERÊNCIA NO PENSAMENTO
As pessoas tinham que mudar a ótica. Primeiro que o discurso é muito baixo. Depois que as coisas que eu falo são pertinentes. Bastava olhar pra minha história e perceber que sempre que me chamaram de louco eu tava com a razão. Desde a época da Blitz, que eu saí e me chamaram de maluco, na época da prisão, da numeração, banca de jornal, revista. Será que não deu pra entender que eu tenho uma certa coerência?! Quando eu lancei o Acústivo MTV, neguinho acabou comigo de uma maneira inclemente. A leitura daquele disco não é um caça-níqueis. É um disco feito com todo carinho e excelência. Agora as coisas tão sempre a meu favor. Aí eu venho, sou massacrado, aí ganho um Grammy. Mas eu mudo (de opinião) também. Eu sou um cara que tenho autocrítica, peço perdão. Às vezes penso numa coisa, depois outra. Eu me contradigo, não sou um cara inflexível.
BÔNUS E ÔNUS DE SER TUITEIRO
Não é que eu tô curtindo (o Twitter). Aquilo é meu trabalho. Eu faço pesquisa de mercado, vejo como as pessoas tão. Não tô ali desocupado achando que aquilo é uma maravilha. Inclusive não é; é muito doroloro. Para cada pessoa legal (que aparece), tem 3 mil idiotas, entendeu? Não é nada interessante não. Mas você chegar e dizer 'devolve essa porra, Maria Bethânia' (sobre a polêmica da cantora com a Lei Rouanet) e 'pum', acontece uma explosão no Brasil. É tudo que eu quero. Porque eu quero justamente causar atrito e causar reflexão.
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