Surge a Memepédia, a primeira "enciclopédia" de gírias do internetês
23/04/2011
Na internet, "corrão" é muito mais do que uma grafia errada para o verbo correr. "Aham, Cláudia. Senta lá" pode ser usado até com quem não se chama Cláudia. E "significa?", mesmo com a interrogação, não representa uma pergunta. Esses são alguns exemplos de memes, uma forma de comunicação cada vez mais comum no mundo digital. Para os não familiarizados com o termo, sua explicação é simples: são expressões ou ideias que se tornam jargões na internet, mas, diferentemente das gírias comuns, o meme vem de uma autorreferência. Um vídeo, uma foto, uma comunidade do Orkut ou mesmo um tuíte podem dar origem a um meme. Para tentar organizar e explicar um pouco desse conteúdo digital surgiu a Memepédia, a primeira enciclopédia dos memes do Brasil. Nascida como uma tag do portal youPIX, ela ganhou uma sessão própria no site e, em breve, deve ir para uma página construída especificamente para abrigar o conteúdo "memético" brasileiro.
O termo meme foi cunhado em 1976, por Richard Dawkins, no bestseller O gene egoísta, como sendo "uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro", ou entre locais onde a informação é armazenada, como livros. Para ele, o meme pode de alguma forma autopropagar-se. Em sua forma moderna, os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida. Segundo Bia Granja, diretora do youPix e "curadora" da Memepédia, a expansão da produção do conteúdo nacional nos últimos anos foi o que possibilitou o surgimento da enciclopédia virtual dos memes. "A cultura de internet no Brasil, nos últimos dois anos, tem se fortalecido e está encontrando seu próprio caminho de originalidade e criação. Faltava alguém para organizar e explicar essa criação aqui no Brasil", explica Bia.
Semanalmente, o grupo formado por Bia e outros três experts no mundo virtual elege um meme para pesquisar. Vale tudo: Google, Twitter, Facebook, Wikipédia e o que mais surgir. Depois de pesquisas e mais pesquisas, os quatro só descansam até descobrir quando e onde aquela expressão surgiu. "Como tudo na internet, nunca conseguimos ter 100% de confirmação sobre a origem das coisas - aparentemente, tudo sempre surgiu no Orkut em algum fórum de games -, mas tentamos ao máximo validar todas as coisas", explica a curadora. Depois de encontrada uma possível origem para o meme, o próximo passo é encontrar provas que validem aquela informação. "O mais importante é ter links que comprovem", completa Bia.
Se a maioria dos memes tem quase sempre a mesma origem, sua popularização precisa de uma forcinha de personagens populares no mundo virtual, responsáveis por resgatar - na maioria das vezes, involuntariamente - as expressões e dar visibilidade a elas. No fim do ano passado, Jesus Manero (@jesusmanero) publicou um post em sua timeline do Twitter que se tornaria uma dos principais memes da atualidade: "Morre tumblo, todos chora outra vez". Em poucos dia, o "todos chora" - assim mesmo, escrito errado, sem o plural - se tornaria tendência entre os internautas, sendo usado sempre que alguém quer se lamentar por uma situação chata. "O que eu fiz com o Jesus Manero foi ser o vetor, repassar uma expressão que já tinha boa aceitação por uma turma que forma opinião e influencia grande parte de uma galera ativa do Twitter", explica o carioca Vyktor Berriel, a mente por trás do personagem.
Cultura de massa
No entanto, quem acha que esse fenômeno é recente, está enganado. Os memes são quase tão antigos quanto a comunicação de massa. Antes que o primeiro computador ou mesmo o primeiro aparelho de tevê fossem construídos, os memes já existiam. "Elas são um fenômeno ligado diretamente à cultura de massa. A partir do momento em que surgem os primeiros jornais baratos, direcionados para o grande público, já no século 19, a autorreferência já foi se estabelecendo", explica o teórico da comunicação e professor da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Cláudio Martino.
Assim, à medida que as formas de comunicação foram evoluindo e novas plataformas sendo desenvolvidas, os memes as acompanharam. Foi assim com o rádio e com os programas de tevê que falam do próprio universo da televisão. "Esse modelo tomou força nos anos 1920 e, na década de 1960, pensadores como Umberto Eco já falavam de uma nova tevê, onde o discurso seria a própria informação", afirma Martino. "Quando um programa televisivo abre espaço em sua programação para falar sobre o próprio universo da televisão, isso é uma forma de autorreferência", completa.
Presente nos outros meios de comunicação, o meme encontrou na internet a plataforma ideal para crescer e se popularizar. A relação com o conteúdo 2.0, onde cada internauta é, ao mesmo tempo, produtor e consumidor de informação, facilita o fluxo de ideias - entre elas, os memes. "Um meme no Twitter é como os bordões do Zorra total. Muita gente repete alguma expressão que é engraçadas e se encaixa em qualquer contexto com facilidade", opina Berriel . Nessa hora, influência no meio digital é essencial para tornar uma simples expressão um meme. "As pessoas compram uma ideia mais facilmente se ela for difundida pelo blogueiro ou pelo tuiteiro de que ela gosta. Aí, mesmo o cara não criando bordões intencionalmente, o meme toma proporções gigantescas de um dia para o outro", completa.
Apesar de passar pelas mãos de internautas influentes, nem todas as expressões podem se tornar memes: "Um meme precisa ser algo legal, bacana. Como em uma escola de ensino médio, onde todos os garotos querem usar roupas parecidas com as dos garotos mais populares, na internet, todos querem usar a expressão do blogueiro legal" explica Frederico Bittencourt, escritor que analisa o comportamento no mundo digital. Se quem cria um meme possui influência na internet, replicar e popularizar a expressão é uma maneira de experimentar parte desse "poder" no mundo on-line. "Um meme sobrevive em um espaço rarefeito como a internet porque quem o adota instantaneamente se transforma em uma pessoa mais legal", completa.
Fonte: Correio Brasiliense/ Max Milliano Melo
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23/04/2011
Na internet, "corrão" é muito mais do que uma grafia errada para o verbo correr. "Aham, Cláudia. Senta lá" pode ser usado até com quem não se chama Cláudia. E "significa?", mesmo com a interrogação, não representa uma pergunta. Esses são alguns exemplos de memes, uma forma de comunicação cada vez mais comum no mundo digital. Para os não familiarizados com o termo, sua explicação é simples: são expressões ou ideias que se tornam jargões na internet, mas, diferentemente das gírias comuns, o meme vem de uma autorreferência. Um vídeo, uma foto, uma comunidade do Orkut ou mesmo um tuíte podem dar origem a um meme. Para tentar organizar e explicar um pouco desse conteúdo digital surgiu a Memepédia, a primeira enciclopédia dos memes do Brasil. Nascida como uma tag do portal youPIX, ela ganhou uma sessão própria no site e, em breve, deve ir para uma página construída especificamente para abrigar o conteúdo "memético" brasileiro.
O termo meme foi cunhado em 1976, por Richard Dawkins, no bestseller O gene egoísta, como sendo "uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro", ou entre locais onde a informação é armazenada, como livros. Para ele, o meme pode de alguma forma autopropagar-se. Em sua forma moderna, os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida. Segundo Bia Granja, diretora do youPix e "curadora" da Memepédia, a expansão da produção do conteúdo nacional nos últimos anos foi o que possibilitou o surgimento da enciclopédia virtual dos memes. "A cultura de internet no Brasil, nos últimos dois anos, tem se fortalecido e está encontrando seu próprio caminho de originalidade e criação. Faltava alguém para organizar e explicar essa criação aqui no Brasil", explica Bia.
Semanalmente, o grupo formado por Bia e outros três experts no mundo virtual elege um meme para pesquisar. Vale tudo: Google, Twitter, Facebook, Wikipédia e o que mais surgir. Depois de pesquisas e mais pesquisas, os quatro só descansam até descobrir quando e onde aquela expressão surgiu. "Como tudo na internet, nunca conseguimos ter 100% de confirmação sobre a origem das coisas - aparentemente, tudo sempre surgiu no Orkut em algum fórum de games -, mas tentamos ao máximo validar todas as coisas", explica a curadora. Depois de encontrada uma possível origem para o meme, o próximo passo é encontrar provas que validem aquela informação. "O mais importante é ter links que comprovem", completa Bia.
Se a maioria dos memes tem quase sempre a mesma origem, sua popularização precisa de uma forcinha de personagens populares no mundo virtual, responsáveis por resgatar - na maioria das vezes, involuntariamente - as expressões e dar visibilidade a elas. No fim do ano passado, Jesus Manero (@jesusmanero) publicou um post em sua timeline do Twitter que se tornaria uma dos principais memes da atualidade: "Morre tumblo, todos chora outra vez". Em poucos dia, o "todos chora" - assim mesmo, escrito errado, sem o plural - se tornaria tendência entre os internautas, sendo usado sempre que alguém quer se lamentar por uma situação chata. "O que eu fiz com o Jesus Manero foi ser o vetor, repassar uma expressão que já tinha boa aceitação por uma turma que forma opinião e influencia grande parte de uma galera ativa do Twitter", explica o carioca Vyktor Berriel, a mente por trás do personagem.
Cultura de massa
No entanto, quem acha que esse fenômeno é recente, está enganado. Os memes são quase tão antigos quanto a comunicação de massa. Antes que o primeiro computador ou mesmo o primeiro aparelho de tevê fossem construídos, os memes já existiam. "Elas são um fenômeno ligado diretamente à cultura de massa. A partir do momento em que surgem os primeiros jornais baratos, direcionados para o grande público, já no século 19, a autorreferência já foi se estabelecendo", explica o teórico da comunicação e professor da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Cláudio Martino.
Assim, à medida que as formas de comunicação foram evoluindo e novas plataformas sendo desenvolvidas, os memes as acompanharam. Foi assim com o rádio e com os programas de tevê que falam do próprio universo da televisão. "Esse modelo tomou força nos anos 1920 e, na década de 1960, pensadores como Umberto Eco já falavam de uma nova tevê, onde o discurso seria a própria informação", afirma Martino. "Quando um programa televisivo abre espaço em sua programação para falar sobre o próprio universo da televisão, isso é uma forma de autorreferência", completa.
Presente nos outros meios de comunicação, o meme encontrou na internet a plataforma ideal para crescer e se popularizar. A relação com o conteúdo 2.0, onde cada internauta é, ao mesmo tempo, produtor e consumidor de informação, facilita o fluxo de ideias - entre elas, os memes. "Um meme no Twitter é como os bordões do Zorra total. Muita gente repete alguma expressão que é engraçadas e se encaixa em qualquer contexto com facilidade", opina Berriel . Nessa hora, influência no meio digital é essencial para tornar uma simples expressão um meme. "As pessoas compram uma ideia mais facilmente se ela for difundida pelo blogueiro ou pelo tuiteiro de que ela gosta. Aí, mesmo o cara não criando bordões intencionalmente, o meme toma proporções gigantescas de um dia para o outro", completa.
Apesar de passar pelas mãos de internautas influentes, nem todas as expressões podem se tornar memes: "Um meme precisa ser algo legal, bacana. Como em uma escola de ensino médio, onde todos os garotos querem usar roupas parecidas com as dos garotos mais populares, na internet, todos querem usar a expressão do blogueiro legal" explica Frederico Bittencourt, escritor que analisa o comportamento no mundo digital. Se quem cria um meme possui influência na internet, replicar e popularizar a expressão é uma maneira de experimentar parte desse "poder" no mundo on-line. "Um meme sobrevive em um espaço rarefeito como a internet porque quem o adota instantaneamente se transforma em uma pessoa mais legal", completa.
Fonte: Correio Brasiliense/ Max Milliano Melo
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